A mensagem do futuro para o Brasil

Já passava do meio-dia quando Rogério ligou dizendo que tinha tomado o caminho errado e se atrasaria meia hora para nossa reunião. Como fazia tempo que não nos víamos e ele dissera ter algo “fantástico” a revelar, eu havia tomado o cuidado de escolher o melhor restaurante da cidade para almoçarmos confortavelmente naquele sábado pós-corona vírus, quando por milagre a dengue e todas as demais influenzas tinham sido exterminadas do planeta e apenas o covid-19 era male digno de atenção. Já que teria que esperar, coloquei o fone e comecei a ouvir as atualidades: um médico de 43 anos tinha acabado de ser preso por questionar o laudo oficial que colocava na conta da pandemia a morte de um cidadão de 155 anos. “Mas ele tinha treze tumores, era diabético e estava vivendo com a ajuda de aparelhos há 11 anos!”, argumentou o clínico, sem suscitar a empatia das autoridades. “É a lei, meu caro”, respondeu gentilmente o policial, pouco antes de investir gentil joelhada na boca do estômago do médico. De fato, assim que o número de mortes causadas pela doença chegou a 377 milhões no país, um projeto de autoria do presidente da Câmara estabeleceu que ninguém mais poderia questionar publicamente o teste oficial, diagnosticado por um sistema venezuelano, sob pena de prisão perpétua por três encarnações. Fiquei absorto às notícias e não vi que o restaurante de uma hora para outra lotara; centenas de jovens, fortes e altos enchiam as mesas a trocar perdigotos, como se o ambiente tivesse se tornado o point dos marombeiros locais. “João!”, tive um sobressalto. Era Rogério.

— Que loucura essa história de vírus! Está acompanhando?, perguntei após os abraços e as típicas demonstrações iniciais de apreço.

— Sim, respondeu Rogério, assumindo uma expressão séria. E isso faz parte do motivo que me trouxe até aqui, completou sem rodeios. Aconteceu algo fantástico comigo e você tem papel importante em uma missão, a mais importante missão da história do país!

Desde a noite passada, quando Rogério interrompeu um hiato de 10 anos sem se comunicar convidando-me para para aquela conversa, fiquei intrigado sobre qual seria a urgente novidade. Ele era a pessoa que vivera as mais surpreendentes experiências que poderiam ser vividas por um único ser humano. Graças a uma tecnologia que ele mesmo inventara aos 13 anos, fora o primeiro homem a pisar em Titã, uma das 82 luas de saturno, a única do sistema solar com atmosfera considerável. Também se notabilizou por receber da Academia Sideral de Agarta (ASA) o Prêmio Fênix de Resistência, após permanecer por doze ciclos lunares submerso nas larvas do Kilauea. Sem contar os 9 dragões, 13 lestrígones e 32 gárgulas que havia decepado tendo uma das mãos amarradas, feitos colhidos ao longo de dois míseros dias. Então, se Rogério tinha algo de “fantástico” a contar, seria um acontecimento realmente dantesco, e o fato de me envolver em uma “missão” arrepiava-me as espinhas.

— E então, do que se trata?, indaguei ansioso.
Sem cerimônias, passou a narrar com incrível naturalidade a história mais sensacional que já ouvira até aquele dia.

— Lembra-se daquele experimento de viagem no tempo em que estava trabalhando desde a nossa última conversa, em 2010? — acenei afirmativamente com a cabeça. Pois bem! Consegui concluí-lo há um mês e, com a máquina, visitei o Brasil do ano de 2222 onde permaneci por 39 anos. Absurdo? Pois saiba que, quando retornei, qual não foi a minha surpresa ao descobrir que as quase quatro décadas no futuro tinham consumido apenas três semanas neste tempo presente!

Percebendo-me boquiaberto diante das revelações, não esperou qualquer pergunta que de mim poderia partir e prosseguiu com a narração.

— Naquele tempo, já há 111 anos o Brasil havia reconhecido o engodo da República, restabelecendo a monarquia como modo de governo. O rei era um homem justo, tinha o dom de coletar as melhores decisões para o bem comum diretamente dos arcanjos celestiais e comentava-se que em seu sangue corria a descendência de Abraão, fato que não pude confirmar.

— E o que mais?, indaguei, atônito.

— Os filhos da nação finalmente descobriram sua conexão com a centelha divina que há neles e passaram a cooperar mais do que competir. Assim, a fome, as guerras e, principalmente, o Big Brother Brasil foram definitivamente abolidos. A elevação espiritual foi tamanha que ali nem eram mais necessárias máquinas para vencer a gravidade; mesmo sem asas, todos volitavam alegremente pelo planeta à velocidade da luz.

— Mas por que está me contando tudo isso agora?

— Assim que cheguei ao Brasil de 2222, tive uma audiência com o Rei. O soberano revelou-me que o estabelecimento da maravilhosa realidade que eu contemplava só foi possível graças à intervenção de um terráqueo de 2020 que, em posse de sua máquina do tempo, acessou o que para ele era o futuro e retornou para seu tempo de origem levando a mensagem mais importante do universo: “busque conhecimento”!

— E essa pessoa então é você?

— Sim. Mas é exatamente aí onde mora a gravidade da situação.

— Pois diga-me e afaste de vez esta agonia do meu peito, exigi.

— Assim que retornei ao Brasil atual, fui infectado por um estranho vírus, disseminado artificialmente a partir de laboratórios clandestinos e não terei mais tempo de concluir a minha missão. Por isso, resolvi confiá-la a você, a única pessoa da Via Láctea capaz de assumir o propósito de forma leal e levar a mensagem ao conhecimento da humanidade através da música.

— Mas… Como?! Quem iria acreditar em mim?

Naquele instante, Rogério olha para o céu, pisca sete vezes, e sua garganta passa a emitir sons de tosse seca; diante dos meus olhos, seu corpo passa a suar e a suar até dissolver-se totalmente em um líquido azul turquesa. Olhei ao redor e os jovens marombados também haviam se liquefeito.

Se as pessoas vão acreditar em mim, não sei. O que sei e narrarei na sequência descobri por meio de uma viagem astral que fiz na noite passada. Nessa viagem, voando por nuvens lilases, foi informado por um sábio que, na cultura daquele Brasil 2222, onde homens e mulheres eram de fato honestos e espiritualizados, o dia mais comemorado do ano, com festas que duravam 24 horas, bebidas e comida grátis, era 1º de Abril, o dia da mentira. A data realmente fazia sentido para eles, pois todos os outros dias eram, realmente, dias da verdade.



Publicado por João Cássio

Cantor, compositor e escritor.

8 comentários em “A mensagem do futuro para o Brasil

  1. Assim, a fome, as guerras e, principalmente, o Big Brother Brasil foram definitivamente abolidos. Esta parte foi a melhor….rsrs
    Estimad♡ amigo que belo texto!
    Não duvido que tenha feito esta viagem!
    Afinal acreitamos nas infinitas possibilidades e, como tenho dito: para tudo há um propósito maior e, todas as coisas acontecem para o bem. Embora, nos seja, na maioria das vezes, acreditar nisto assim é. Essencialmente aos que estão dm algum nível conscientes. É tempo de investirmos em nós nosentido de nos tornarmos cada vez mais aptos a aceitar oetorno para o colo do pai: estamos no game cósmico!
    O papel que desempenharemos dependerá exclusivamente de nossas attudes em relação a nós mesmo e ao conjunto deste entenfimento. Amei sua viagem, da proxima me leve junto gostaria de conhecer o Rogério!!!
    Te sm♡ meu querido amig♡!
    Saudades e que hajsm msis Rogérios por aí 💜🙏

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